Antes
de tudo, é preciso saber o significado do termo bioética. A bioética é
uma área da Ética Aplicada e é definida como a parte da ética prática que
estuda os problemas morais relativos ao início, meio e fim da vida (Dall’Agnol,
D. Bioética, 2005). Ou seja, ela aborda problemas éticos relacionados às
Ciências Biomédicas. Para entender quando a bioética se torna importante nesse
meio, é preciso levar em consideração que até o Iluminismo o homem era
considerado um ser superior aos outros e à natureza e que, com o avanço das
pesquisas científicas, o homem passou a ser utilizado como cobaia de pesquisas
sem haver uma regulamentação para isso.
O Iluminismo foi um movimento intelectual ocorrido no século XVIII onde a ciência e a razão ocupavam posições centrais em questionamentos filosóficos. Isso levou a uma recusa a todas as formas de dogmatismo da época, como as monarquias e a religião. Os principais pensadores desse período são John Locke, Voltaire e Montesquieu. As áreas do conhecimento humano, principalmente as Ciências Naturais, ganharam destaque depois do movimento iluminista, e isso fez com que o conhecimento científico fosse estimulado e disseminado. A partir de meados do século XVIII vários pesquisadores científicos intensificaram seus trabalhos, realizando experimentos, expedições e publicando livros para que seus trabalhos fossem devidamente divulgados. É o caso de Linnaeus, com seu Systema Naturae, que forma a base do sistema binomial de nomenclatura das espécies que temos atualmente; Lamarck, que introduziu a divisão dos animais em vertebrados e invertebrados; e Darwin, já no século XIX, com A origem das espécies. Uma boa dica de filme, inclusive, é Criação (2009), onde parte da história de vida de Darwin é contada.
A partir de então, as pesquisas científicas deslancharam e ganharam cada vez mais destaque no cenário mundial. Com isso, vieram problemas que abrangem justamente a questão bioética: o uso de seres humanos em pesquisas científicas. Vale ressaltar algumas pesquisas envolvendo humanos que até hoje chocam pelas atrocidades que foram cometidas.
O Desastre de Lübeck é bem famoso e ocorreu em 1930 na Alemanha. Trata-se de um teste da vacina de tuberculose (BCG) feito em 251 crianças sem o consentimento dos seus responsáveis. Só esse fato já tornaria esse caso absurdo, porém uma contaminação da vacina levou a uma virulência da mesma, totalizando cerca de 75 mortes e 135 crianças apresentaram efeitos adversos. Um verdadeiro desastre!
| Vacina BCG (Fonte: Ministério da Saúde) |
Outro caso que chama muita atenção é o Caso de
Tuskegee que ocorreu nos EUA entre 1932 e 1972 (40 anos!). Trata-se de um estudo
feito com homens negros portadores da sífilis para que os pesquisadores
pudessem estudar a evolução natural da doença. Por natural lê-se sem nenhum
tipo de tratamento. Os participantes desse experimento foram chamados de
“voluntários” e o diagnóstico dado a eles era de “sangue ruim”, mas
sabe-se que eles não eram informados dos riscos que corriam participando
do estudo e, além disso, em troca da participação era oferecido transporte,
alimentação e cobertura das despesas com funeral (que era muito caro na época).
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| Tabela com os dados do estudo da sífilis (Fonte: Wikipedia) |
Isso tudo era oferecido para pessoas que viviam na
pobreza e muitas vezes não tinham o que comer. Podemos, então, considerar que
essas pessoas escolheram participar do estudo? Além disso, os
participantes foram proibidos de se tratarem com a penicilina e os
hospitais do país inteiro estavam impedidos de fornecer tratamento para
qualquer participante do estudo.
A desculpa encontrada por muitos para a
realização de estudos absurdos como esses é que eles eram em prol da ciência,
isto é, o sacrifício valeria pelo resultado final, pelo avanço científico que
seria proporcionado. Entretanto, sabemos hoje em dia que é possível ter avanço
científico sem a desvalorização das cobaias.
Há ainda os experimentos
nazistas realizados nos campos de concentração sobre malária, dengue, febre
tifoide e venenos, principalmente - mais um caso onde as cobaias participavam
do estudo sem o seu consentimento. Para julgar esses crimes cometidos durante a
2ª Guerra Mundial, foi feito o Tribunal de Nuremberg (1945), que deixou claro a
importância da regularização das pesquisas com humanos para que crimes desse
tipo não fossem mais cometidos.
No Brasil, foi só em 1988
com a CNS01 que a regulamentação da utilização de humanos em experimentos
começou a dar seus primeiros passos, culminando com a criação da Sociedade Brasileira de Bioética em 1995.
Reconhecemos,
portanto, a importância da bioética em nosso meio de uma forma geral. A
bioética intervém por pessoas que participam de experimentos, assegurando que
elas serão respeitadas e muito bem informadas sobre cada detalhe do estudo em
que participam, não fazendo nada além do que desejam. A bioética também
assegura que qualquer animal utilizado em experimentos devem se enquadrar nas
normas que regulamentam essa utilização, não é válida somente para humanos
(inclui ratos, camundongos, coelhos, os beagles…).
Isso tudo porque é muito difícil um estudo sem experimento em modelo animal e
que posteriormente tem experimentação em humanos. A bioética vem para balancear
os dois lados e evitar prejuízos para quem quer que seja.
| Coleta de sangue das cobaias humanas em Tuskegee, no estado do Alabama. (Fonte: Wikipedia) |

Excelente fonte de aprendizagem!
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